Lendo e ouvindo a música

Desenhos de Jorge Queiroz da Silva

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

As fortes consequências de ajudar a alguém, sem saber a quem!

No passado as regras de ajudar a alguém eram de extrema facilidade.
Todo mundo ajudava a todo mundo e esse fato nos deixava sempre na obrigação de se fazer uma nova amizade, o que levaria as pessoas a uma crescente e nova fonte de informações e a uma extensa unidade de vida, onde sempre imperavam os longos papos no portão das nossas casas.
As pessoas se achavam protegidas e formavam em torno de si um cinturão de ajuda diária que era ilimitado, e que não envolvia somente os familiares.
Pela nossa orientação, deveríamos estar sempre atentos as coisas que aconteciam diariamente em nossa vizinhança ou em nossa Cidade, pois naquela época, só tínhamos o aparelho de rádio, que por sinal ainda era, muito deficitário.
As ondas curtas eram realmente muito “curtas,” e quem nos garantia as noticias do mundo exterior era sempre o nosso Correio Geral, que se comunicava com as grandes agências internacionais de notícias.
Só saberíamos com certeza da confirmação de qualquer acontecimento, após ter passado uns dez dias do momento da sua ocorrência, ou ainda assim, pela publicação feita em qualquer um de nossos jornais.
Isso sem falar que a nossa era da telefonia ainda em seu início, era na época um privilégio de poucos brasileiros.
E assim pela dificuldade acima assinalada coisas e fatos inesperados iam acontecendo, causando grandes enredos e histórias, que eram fortalecidas pela falta de comunicação em qualquer tipo de negócios.
E por essa dificuldade de se comunicar um fato, eu fui abordado em meu trabalho, por um rapaz que lá chegou com meu nome anotado em uma folha de papel, datado e assinado por um capitão que se dizia meu amigo da Aeronáutica, e que a ele teria prestado um socorro na estação de trem, dentro da gare da Estrada de Ferro Central do Brasil.
O tal sujeito afirmando que o capitão seria um meu conhecido antigo, pedia no bilhete que eu o ajudasse, pois ele necessitava de um emprego urgente, pois estava vindo do interior de Minas Gerais e ao desembarcar, teria sofrido um assalto ali e por ele presenciado.
A partir daquele momento, as coisas iriam se modificar para mim, eu teria ganho de presente um problema enorme, para rápida solução, e que de maneira alguma eu não poderia falhar, pois o assunto era bem complicado, por receber alguém, enviado por uma outra pessoa, que eu já não me lembrava mais quem era.
Fiz a ele então a seguinte pergunta - e o tal capitão não lhe disse, em que unidade da Aeronáutica ele trabalhava, e ainda de onde ele me conhecia - e ele respondeu a tudo dizendo com a cabeça que não, e complementou ainda afirmando pra mim, que tinha chegado até ali, de carona, que o tal militar havia arranjado para ele, lá no centro da cidade, quando pediu ao motorista de um ônibus, para transportá-lo e avisar aonde eu deveria descer, para encontrar com o senhor.
Assim foi feito, e eu lhe peço pelo amor de Deus, que não desconfie de mim, pois sou gente muito boa, e de família humilde, e para cá eu vim para conseguir ajudar também a minha pobre mãe.
E veja o senhor, como eu poderia chegar até aqui, se não conheço nem esta Cidade, porque sou nascido e criado no interior de Minas Gerais.
Aí então eu falei, olha rapaz eu não te conheço, você necessita de um emprego, e não tem nenhuma documentação, eu vou tentar ver que jeito eu darei a esse caso para ajudá-lo, ´pois estou ainda achando tudo muito complicado.
Complementei que não podia levá-lo para minha casa, porque não podia correr riscos, visto que tudo sobre ele eram fundamentos sem comprovação. Pedi que aguardasse na portaria da empresa, pois meu expediente só terminaria às dezoito horas. Naquele período de espera, ela deveria ficar sentado me aguardando.
E assim a partir daquele momento, fui tentar no mercado de trabalho uma vaga para tranqüilizar o pobre coitado. Liguei para algumas empresas, e contava com esperança de solucionar toda aquela historia complicada e triste até então.
Com o meu relato, algumas pessoas ficavam preocupadas e ainda assim diziam pra mim - sai dessa amigo, isto esta me cheirando a ser um golpe, tome muito cuidado.
Ao apagar das luzes, um milagre acontece e uma luz no fim daquele túnel surgiu, me ligou o então chefe de expedição dos transportes da CISPER, o sempre simpático Altair, que me disse, Jorge eu resolvi o problema dele, ele virá provisoriamente para nossa área de transportes, vou deixar ele trabalhar sem nenhum vínculo empregatício e vou dar a ele um prazo, para providenciar a sua nova documentação, e consegui também que ele fique numa moradia provisória aqui mesmo na empresa, nos mesmos moldes de alguns outros empregados na área de transportes, e quero ainda te avisar que ele inicia já na segunda feira depois de amanhã, aí então e lhe agradeci bastante e disse, amigo Altair eu vou ficar nesta historia até o final junto a ti, não vou largá-lo sozinho, nesta empreitada e o que você precisar estarei sempre as tuas ordens.
E naquela hora exatamente eu deixava o trabalho e me dirigia a portaria onde ele estaria me aguardando.
Fui sincero com ele - o emprego para você está arranjado, você começa na segunda feira, depois do final de semana. E como você não tem nenhuma documentação, eu não posso deixá-lo dormir na rua, nem levá-lo para minha casa, você vai comigo agora para a delegacia policial, e eu vou pedir ao delegado da 19ª depois de contar toda a sua historia, para deixá-lo pernoitar lá na delegacia até segunda feira, quando terá que ir para o seu primeiro dia de trabalho.
E assim foi feito e o delegado entendeu toda a minha dificuldade e deixou ordens expressas na delegacia, autorizando a ele dormir as duas noites seguintes na delegacia policial que seriam necessárias, e que ele também participasse de todos os lanches e alimentação que seriam dado aos presos, e que ele estaria proibido de sair dali para rua, pela sua falta de documentos, pois seria uma presa fácil em qualquer ronda policial.
Aí então, eu agradeci ao delegado o favor que ele me teria feito, e fui embora para casa, já mais aliviado pela nova condição alcançada em razão de ter dado um andamento inicial, ao caso do José Carlos, nome que ele me disse ter sido batizado,
O final de semana se passa, e ele inicia o seu trabalho, corre toda a semana, e para provar a mim que eu ainda teria algumas coisas a resolver, me liga na sexta –feira o amigo Altair, o amigo que arran jou o emprego para ele na CISPER.Vai logo dizendo : - amigo Jorge, já estamos sem sorte logo na primeira semana.
Perguntei porque e ele me contou que o tal sujeito levou uma queda do caminhão e quebrou um braço e que ele não tinha condição de levá-lo para o médico da empresa, pois ele não tinha vínculo empregatício lá, razão pela qual estava me solicitando ajuda. Eu respondi que a solução ia ficar por minha conta e pedi que aguardasse porque eu mesmo iria levá-lo ao hospital publico. Tentei arranjar uma ambulância, para conduzi-lo mas foi tudo em vão. Liguei para um amigo que tinha uma caravan onde poderíamos transportá-lo em segurança e finalmente o conduzimos ao hospital publico, mas infelizmente, nada puderam fazer, entalaram o braço dele e disseram que só poderiam engessá-lo 72 horas depois, e tudo ficou difícil, e ele retornou a empresa e ficou no tal quarto em que se hospedava junto a outros trabalhadores.
Procurei o amigo Altair, e expus a nova situação e ele me disse, vou agüentá-lo aqui até o máximo de tempo que eu puder, a turma se reuniu aqui e fizemos uma lista para ele, e ele está com algum dinheiro para se manter, vamos ver o que virá por aí.
Termina mais um fim de semana, e vou trabalhar na segunda feira e logo na primeira hora, o amigo Altair me chama ao telefone, e me diz de cara, Jorge, o nosso amigo nos traiu, ele pegou todo o dinheiro da lista que demos a ele, e ele foi embora nos abandonou, disse a um colega que iria para estação ferroviária e voltaria de trem para Minas Gerais, pois o dinheiro que tinha dava para se cuidar junto da sua mãe.
Não fique preocupado amigo, deixe ele ir, fizemos tudo que foi possível para socorrê-lo, talvez ele não tenha entendido nada dessa historia nossa tão amiga e verdadeira, fica pra nós uma lição.
Eu então pedi desculpas ao amigo Altair, e disse que ele poderia contar comigo em qualquer outra situação, pois descobri o que faz as pessoas, honestas e verdadeiras brigarem pelo bem-estar de alguém que nem conhecem.
Mas pensam vocês que esta luta terminou, qual nada, e neste mesmo dia, estou trabalhando já no segundo expediente, me telefonam da delegacia que pertenciam ao ponto final da linha férrea, em Mangaratiba, para fazer o transbordo de passageiros para o Estado de Minas Gerais, para me pedirem de lá, a minha presença, para soltar o José Carlos, que havia sido preso no trem, pois estava ele sem nenhum de seus documentos e teria sido detido, e que teria que conversar com eles, pois ele disse não ter documentos mas que eu seria a pessoa que poderia identificá-lo. Eu atendi no telefone ao delegado, e disse que ele ouviria toda a historia tenebrosa que eu tinha para contar, mas somente faria isto por telefone, e que eu me recusava em deixar o Rio de Janeiro, para atender a uma pessoa que não afirmou, em momento algum que dizia para mim uma verdade, e completei para o delegado, faça dele o que quiser doutor, mas não me aguarde aí, para inocentá-lo jamais. E por favor doutor diga a ele que eu realmente o reconheço, mas que ele merece uma lição, pelo descaso e loucura, que teria feito a mim e aos meus amigos, que batalharam pra sua identidade pessoal.

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