Lendo e ouvindo a música

Desenhos de Jorge Queiroz da Silva

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A violência sem armas


Eu ainda não esqueci... Diariamente, quando voltava da escola, eu fazia uma travessia de uma rua para outra, e, para facilitar a minha caminhada, me utilizava de uma vila de casas, que cortava o caminho. Sempre caminhava por ali, alegremente. Até que num determinado dia, a minha caminhada feliz, foi interceptada por um grupo de “pivetes”. Eram mais ou menos, uma meia dúzia deles, e estavam na rua só para aprontar. Quando eles me viram, formaram ràpidamente um corredor polonês, para que eu por ali passasse. Pude notar a má intenção daquele grupo de moleques, e tentei voltar, mas não havia mais tempo. Eles correram e me alcançaram, e eu fui vítima da primeira maldade de rua na minha vida. Eles não só me espancaram, como também, um dos moleques daquela turma, com a mão cheia de pimentas, esfregava sem dó, e sem nenhuma piedade, aquelas pimentas malaguetas, em meus olhos, e na minha boca. Mas, como nunca estamos sós, por obra da sorte, a minha tia paraguaia, a saudosa “Ormenzinda”, que estava varrendo o jardim naquela hora, observou o que acontecia e partiu para cima deles de vassoura em punho, despachando toda aquela maldita turma à vassouradas, graças a Deus! Sofri muito, pois os meus olhos ficaram por demais afetados, e meus lábios, que também incharam, fizeram com que eu tivesse que ser socorrido no Hospital Getúlio Vargas, pois corria riscos de cegueira!
(Jorge Queiroz- abril de 2009)
Fonte da imagem:machismoeducativo.blogspot.com

terça-feira, 17 de maio de 2011

O Carnaval de rua de outrora


Era um carnaval de rua com mascarados. Ninguém brincava no carnaval sem máscaras. As famílias inteiras viviam, nessa época, um terror natural, haja vista que as máscaras escondiam os desafetos. Isso, por si só, me causava muito medo. Blocos inteiros de sujos de rua e mascarados, invadiam as nossas casas, para roubar comida, roupa e pedir dinheiro. Às vezes, até aconteciam crimes, e nesta época, eles eram facilitados a todos os desordeiros que, se utilizando do sigilo das máscaras, invadiam nossas casas até para abusar da dona de casa. Acintosamente, pediam dinheiro para as despesas do bloco, que ficava na rua de sábado até quarta feira de cinzas. Eu me lembro muito bem, que meu pai tinha o hábito de pendurar cachos de bananas na porta da sala, junto à passagem para a cozinha e normalmente, quando o bloco invadia a minha casa, eu dizia com os meus botões - lá se vão as minhas bananas! – Levei um longo período para deixar de ter medo dos mascarados, pois naquela época era uma facilidade as pessoas se vingarem umas das outras, fazendo-me crer que um deles, ao entrar na minha casa, poderia tirar a vida do meu pai ou abusar de minha mãe. Hoje eu reflito e acho que o Carnaval de rua terminou por que o nosso povo não sabia brincar de cara limpa. Ainda bem que ele terminou, pois na nossa era atual, com toda esta grande violência, com as drogas e com o tráfico e com a liberdade do uso fácil das armas de fogo, tudo seria muito difícil para nós. Como nos iríamos conviver, com todas estas ilegalidades mascaradas?
(Jorge Queiroz da Silva- junho de 2009)
Fonte da imagem: oanjo-voador.blogspot.com

domingo, 15 de maio de 2011

MINHA CONVIVÊNCIA COM OS CHINESES

Quando eu residia em Vila Isabel, no famoso bairro do Noel Rosa, eu tinha próximo a mim uma estação de metrô, a estação Maracanã, e assim eu tinha toda a facilidade de locomoção para o meu trabalho no Centro da Cidade.
Ali, naquele bairro, meu filho caçula, estudava no antigo e já meio secular, Colégio Nossa Senhora de Lourdes.
Por obra do destino, eu conheci ali, uma família chinesa, que residia na rua vizinha, a rua Oito de Dezembro, pois esse meu filho estudava na mesma classe de um dos meninos daquela família.
Nossa ligação foi se estreitando e fez com que o meu filho levasse o seu coleguinha “chinês”, pra’ brincar com ele em casa e participar de jogos de vídeo game.
Aquela aproximação fez com que ficássemos amigos dos pais do menino.
Sua mãe, que era uma chinesa, de nome Elisabete, tinha se formado na China em jornalista.
Foi ela quem me ensinou a identificar nas mãos dos homens a quantidade de filhos homens que teriam na vida, examinando as linhas das dobras dos dedos.
O pai do menino, o senhor Chao Chim Pang, se dizia um economista lá na China, que teria ocupado um cargo elevado no Ministério da Economia Chinesa, e que aqui no Brasil, foi enganado por um brasileiro e se estabeleceu na Praia do Flamengo, como proprietário de uma loja de produtos importados, entre porcelanas para enfeites e decorações e eletro-eletrônicos.
Confidenciou-me ele, que tentou se estabelecer na área de mineração lá em Belo Horizonte e foi ludibriado pelo dono da mineradora, quando assinou um contrato de sociedade de parte do dinheiro que trouxe da China, em torno de oitenta mil dólares. Seu então sócio, aproveitando-se da sua falta de conhecimento das leis brasileiras, vinculou o tal contrato de sociedade com ele, em dólares, fazendo-o perder grande parte do dinheiro, pois ao tentar reaver o seu dinheiro em dólares ali empregado, perdeu a causa.
De uma certa feita, foram almoçar lá em casa, a nossa comida brasileira e depois nos convidaram para saborear a comida chinesa na casa deles.
Era quase diariamente, que nos encontrávamos no metrô, ele, indo para o Flamengo, e eu, indo para o escritório da empresa onde trabalhava, no Castelo.
Esses chineses ficaram amigos, durante muito tempo e eu indicava a eles outros brasileiros, que se tornaram seus compradores na importadora , passando a me visitar com constância na empresa em que eu trabalhava, em busca de bons negócios.
Ajudei-o enquanto pude, sem nenhum interesse financeiro ou de negociar com ele.
Tempos depois eles se afastaram e vim a saber que ele saiu da China exonerado do cargo que ocupava e fugiu da última revolução interna política chinesa, o que normalmente o levaria à mudanças constantes de residência.


(Jorge Queiroz da Silva - setembro/2010)

Fonte da imagem:caratinga.net

sábado, 14 de maio de 2011

MINHA CONVIVÊNCIA COM OS JAPONESES

Eu sou do tempo de um Brasil ainda preocupado com todos os movimentos individuais e coletivos do seu povo, de quantidade ainda pequena, para manutenção de uma guarda que fiscalizasse um litoral gigante e desconhecido.
Éramos, nos anos 30, um pais que ainda carecia de leis e de idéias, que pudessem nos dar um crescimento sustentável.
Eu, ainda menino, via nas famílias brasileiras, o acompanhamento da vinda de japoneses para o nosso país, que aqui chegavam, para se fixarem em nossas terras, como os italianos, alemães, ingleses, franceses e chineses.
Os japoneses tinham como de hábito, nos avisarem de que éramos ricos, de solo e clima e que tínhamos todas as virtudes para um crescimento rápido e seguro.
Naquela época, eu observava que as famílias se preocupavam muito com o crescimento das crianças, pois ainda não tínhamos meios de acompanhar os nossos filhos crescendo, na velocidade necessária para vestir, calçar e alimentar, nas devidas faixas de idade.
Faltava-nos o principal - o maquinário próprio, que nos proporcionaria a velocidade equiparada com esse crescimento.
Lembro-me bem, que os brasileiros teciam elogios aos japoneses, e recomendavam que adotássemos o processo de cada família de japoneses, que enrolavam os pés de seus filhos do sexo masculino, para que eles não crescessem.
Embora despertassem em nosso povo o desejo de conhecer aquela sabedoria milenar, sabíamos que teríamos que buscar muita paciência, que nos conduzisse a razão e a nova busca da altura média do nosso filho brasileiro, que era a mínima.
Levamos assim muitos anos, para topar aquele desafio de poder transformar os nossos baixinhos em gigantes que já temos hoje por aí. Hoje, já possuimos condicionamentos que nos dão a certeza de sermos um país gigante e de uma raça muito forte e especial.
Na época em que eu tinha um sítio e criava galinhas, adquiri uma grande experiência com amigos japoneses plantadores e criadores na nossa agricultura.
Ensinaram-me a prestar atenção na ração que eu utilizava para alimentá-las. O simples uso de sal na ração de galinhas que põe ovos, fazem com que as poedeiras parem imediatamente de botar os ovos nos ninhos demarcados para cada uma delas.
Adicionando sal à ração, os administradores do meu sítio teriam a possibilidade de sabotar as minhas poedeiras e mascararem a produção para enganar-me como proprietário, facilitando os desvios de ovos.
Agradeço aos japoneses por esse ensinamento, que me fez fiscalizar a granja à distância e angariar grandes lucros com as minhas poedeiras.
Lembro-me também que o primeiro carro que eu tive, foi um Fusca, ano 1961, ainda queixo duro, que me foi dado de presente, pelo Presidente da Construtora onde eu trabalhava.
O Presidente queria ajudar o engenheiro Tadashi, que era um japonês nosso amigo da Empresa de Consultoria de Planejamento, que fora forçado a vender o seu carro devido ao crescimento de seus filhos, o que exigia um carro maior.
Por simpatia àquele japonês, o carro me foi dado, pois eu naquela época, ainda não tinha tido condições de adquirir um automóvel, embora meu patrão sempre me cobrasse, pela necessidade que eu tinha no meu trabalho de locomover-me com rapidez.
Mesmo sem possuir carteira de motorista, aceitei aquele grande presente e me habilitei diante dos ´0rgãos competentes, ficando satisfeitíssimo pois o carro do amigo japonês, mesmo com mais de dez anos de uso, estampava o brilho de um automóvel zero quilômetro, pelo bom trato que recebia daquele japonês.

(Jorge Queiroz da Silva - setembro/10)
Fonte da imagem:inusitatus.blogtv.uol.com.br

sexta-feira, 13 de maio de 2011

MINHA CONVIVÊNCIA COM OS ESPANHÓIS

Convivi na década de sessenta com dois espanhóis que pareciam ter dupla nacionalidade, pelo grande amor que dedicavam ao Brasil.
Já estavam aqui há algum tempo e se instalaram no próspero bairro do Recreio dos Bandeirantes.
O progresso nos anos sessenta, ainda nascia nas mãos dos novos buscadores de negócios e do desenvolvimento do turismo em nossas terras.
Aqueles dois espanhóis, se valeram da sua força de vontade e de suas idéias iniciais e se tornaram pescadores, naquela linda região.
Ali, naquela praia, montaram um pequeno bar projetado para se tornar futuramente um restaurante charmoso e de pratos saudáveis. Serviam a comida brasileira em diversas formas, fosse ou não verão, com as mais sublimes peixadas cariocas e camarões inesquecíveis.
Foi assim que nasceu o atual Restaurante Âncora, que não sei se ainda existe no local.
A especialidade daquela dupla espano-brasileira, que amava o nosso Brasil e os brasileiros, fez parte do desenvolvimento daquela área, como também ali se casaram e formaram suas famílias, e quando seus filhos, mais a frente tiveram sua formação técnica, eles montaram a primeira Escola de Pilotos de Helicópteros naquele local.
Fizeram com que seus filhos, já formados, assumissem a direção da tal escola, sendo os formadores dos seus instrutores de vôo, naquele momento de tanta importância para o empreendimento.
Soube mais tarde por moradores antigos do local, que aquele empreendimento, o tal Heliporto, se tornou o ampliado Aeroporto, que já existe, há mais de quinze anos, lá na Barra da Tijuca.
Sem dúvida, meus amigos espanhóis foram os grandes responsáveis, pelo aumento do turismo, naquela tão famosa área.
Saúdo aquela dupla espano-brasileira, pela sua vontade de pensar em prol de um desenvolvimento, que antes, tão pessoal, se tornou de interesse estadual.

(Jorge Queiroz da Silva - setembro/2010)
Fonte da imagem:abaciente.blogspot.com

quinta-feira, 12 de maio de 2011

MINHA CONVIVÊNCIA COM OS ALEMÃES

Meu primeiro convívio com os alemães, lembra a minha primeira infância, pois foram os primeiros estrangeiros com quem me relacionei.
Aqueles meninos alemães, vieram para o Brasil antes do final da guerra e eram meus amiguinhos de rua e de visitas em casa.
Eram filhos do dono do restaurante, do morro da Urca no Pão de Açúcar e nós tivemos um excitado período de adaptação em nossas amizades, pois convivemos juntos, como se não fossemos inimigos durante a última guerra que decorria na Europa naquela época.
Repentinamente, eles se mudaram do Rio de Janeiro, que era a Capital Federal do Brasil.
Fiquei penalizado e preocupado, porque eles - o HANS, o JULIO e a LUIZA, desapareceram como se tivessem sido perseguidos.
No entanto,mais adiante, vim a saber que eles tinham vendido o negócio e voltado para o sul do nosso país.
Mais a frente, num outro encontro, quando eu já tinha meus 35 anos de idade, num curso na IBM do Brasil, no centro de estudos para me tornar um programador de computador 360/20, o primeiro dos gigantes computadores a chegarem aqui no nosso Brasil, voltei a conviver com outros alemães.
O momento da informática no Brasil ainda engatinhava e somente existiam dezesseis empresas que eram possuidoras daquele gigante da computação, o novo 360/20, que nem de longe, se parece com o nosso note-book de hoje em dia.
Tal máquina só nos reservava em sua memória, a capacidade de 16.000, posições de caracteres e ocupava uma sala com uma área de vinte metros quadrados, para receber todas as unidades necessárias.
Nem se pensava que num determinado dia, o nosso atual note-book, viesse nos trazer milhões e milhões de posições de caracteres, ocupando um espaço apenas de quarenta centímetros.
Fui indicado pelo meu amigo de escola, que gerenciava o departamento de cursos da IBM e que cuidou do meu encaminhamento para estágio na Bayer do Brasil, onde fiquei no Centro de Processamento de Dados convivendo de perto, com seis alemães, de nomes raros e completamente diferentes dos josés, antônios e manuéis, existentes aqui no Brasil.
Fiquei durante aquele tempo, num difícil convívio, com aqueles homens de nomes fortes como Eisberg, Freitag, Wolfgang, Agustin, Hans, Gulliver....etc. e sonhando com a minha admissão na área farmacêutica.
Mas aquela fase, foi só de sonhos, pois um diretor da empresa, que estava na Alemanha em férias, fê-los cair por água abaixo, quando na volta ao Brasil, pra’ sua reintegração, já trouxe da Alemanha, um novo funcionário para preencher a tal vaga do meu sonho.
De lembrança só ficou o “charuto”, símbolo da aprovação e liberação do meu estágio, recebido dos meus amigos alemães que, como eu, tinham a certeza da minha admissão.
Mas tudo me valeu na vida, como mais um aprendizado, pois na realidade para mim nunca existirão os sonhos frustrados, eu sou e sempre fui um forte destruidor de frustrações, por ser sempre um grande otimista!

(Jorge Queiroz da Silva - agosto de 2010)
Fonte da imagem:veronicapacheco.wordpress.com

quarta-feira, 11 de maio de 2011

MINHA CONVIVÊNCIA COM OS FRANCESES

Meu primeiro contato com esse povo, foi com a professora Duttel, no Colégio Brasileiro de São Cristovão, onde eu estudava.
Um certo dia, a lição de casa que teríamos que decorar para cantar em sala de aula, era a canção francesa, “PRET MOI TA PLUME!”
Eu, por distração, não anotei o pedido da professora e conseqüentemente não estudei a tal canção.
Em sala de aula, fui chamado pela minha professora, a madame Duttel, para cantar, e não consegui, já que não havia estudado.
Como aquela aula era a primeira do primeiro turno, na parte da manhã, ela resolveu me castigar, fazendo com que eu a acompanhasse de sala em sala, para assistir a todas as aulas de francês e poder decorar a tal canção.
Como se “aquela vergonha” não me bastasse, me fez acompanhá-la até sua hora do almoço, onde me fez almoçar com ela, para repetir o mesmo procedimento nas aulas do turno da tarde.
No final de tudo, ela, furiosa, me cobrou se eu tinha aprendido “La canson”. Felizmente, eu pude provar a ela que eu sabia cantar a canção inteira, de trás para frente, e que nunca mais poderia esquecê-la, mesmo que decorressem mais de sessenta anos.
Parece que aquele colégio estava fadado a marcar de uma maneira controversa minha convivência com os franceses.
Um novo incidente com o meu professor de desenho geométrico, ocorreu logo em seguida.
Estava eu conversando em aula e o senhor Alexandre Dumas, vulgarmente chamado por nós, seus alunos, como (Vá lá em pé no canto), me colocou de pé, com a cara no vértice da parede da nossa sala de aula, por quase duas horas, pois teríamos a seguir a hora do nosso recreio, gritando: “vá lá em pé no canto, menino”!
Acho que a vida não quis que eu tivesse só lembranças más dos franceses, pois pude, mesmo depois daquele incidente, sentir o interesse daquele professor no meu aprendizado e vê-lo a me acompanhar de perto, no meu desempenho como aluno, fazendo com que eu me transformasse em um ótimo projetista e influindo no meu interesse pelos desenhos.

(Jorge Queiroz da Silva - agosto/2010)
Fonte da imagem:alemdovinho.wordpress.com

terça-feira, 10 de maio de 2011

MINHA CONVIVÊNCIA COM OS ITALIANOS

A minha primeira ligação com esse povo, foi quando me empreguei num grupo de fabricantes de móveis e camas hospitalares.
Travei conhecimento com um italiano de personalidade forte e quero crer que a sua posição como dono da empresa, o fazia assim, austero com todos que o cercavam.
Não posso no entanto esquecer que o convívio com esse patrão, o Sr. Lamero Astério Presto, me fez orgulhosamente ser o criador de um primeiro passo importante nas leis trabalhistas, mesmo sem ser conhecedor da jurisprudência trabalhista das leis brasileiras. Tal lei já tinha sido aprovada pelo Congresso Nacional e pela sua falta de uso, já estaria perto de ter o seu prazo de validade expirado, pois estava em vias de completar cinco anos sem utilização, visto que fui o primeiro brasileiro a fazer uso dela. E o fiz, por força do que esse meu patrão me fez. Tinha sido eu convocado pelo CPOR/RJ após minha aprovação, para fazer meu curso de OFICIAL/R2, o que me dava o direito de só trabalhar meio expediente e esse meu bendito patrão italiano, não aceitou de maneira alguma, a minha convocação.
Lembro-me bem, quando gritando comigo em voz alta, me disse que não aceitava o fato e que só continuaria sendo seu funcionário se trabalhasse em horário integral. Caso contrário, eu deveria procurar meus direitos na Justiça.
Eu era um jovem, que lia jornais e estava sempre bem informado e então, só fiz comparecer ao setor competente para recorrer e assim ganhar a tal ação trabalhista, que teve seu pagamento na própria mesa de julgamento em dinheiro vivo e feito pelo tal patrão, um brutamontes.
Não posso deixar de agradecer ao Sr. Lamero os elogios recebidos do juiz durante o julgamento da causa, firmando para a juíza auxiliar e para os escrivães e advogados das partes, que eu trouxe de volta à validade, uma lei pronta a expirar e que eu deveria me sentir muito feliz em ser o objeto acelerador de uma nova jurisprudência na lei trabalhista brasileira.
No entanto, para me fazer mudar de opinião sobre os italianos, convivi num segundo momento, com um italiano de personalidade totalmente oposta.
Foi em 1958, quando aos vinte e quatro anos trabalhava numa Indústria Química e Farmacêutica.
Naquela área industrial, era meu companheiro de trabalho, o Sandro, um jovem que veio fugido com sua mãe da guerra iniciada na Europa em 1938, quando ele era ainda um menino e sobreviveu a um ataque aéreo e perdeu o seu pai.
O Sandro era uma figura risonha e sempre me convidava para provar as iguarias que sua “mama”, insistia em preparar para nós, para com um delicioso almoço à italiana, selarmos aquela nossa amizade ítalo- brasileira, pois ele não se cansava de comentar com ela sobre mim.
Infelizmente aquele tão esperado almoço não chegou a acontecer, pois repentinamente, ele foi vitimado por um câncer, que creio eu, já teria mostrado a sua origem pelos efeitos malignos da guerra nuclear, após as bombas atômicas terem sido jogadas, em cima de Hiroshima e Nagasaki, no Japão.
A morte do Sandro deixou em mim um terrível sentimento de perda, pela figura que ele era, a quem passei a associar todos os italianos.
(Jorge Queiroz da Silva, em 20/08/2010)
Fonte da imagem:cdvnovela.blogspot.com

segunda-feira, 9 de maio de 2011

MINHA LIGAÇÃO COM OS PORTUGUESES

A minha primeira visão de vida foi com os tão amados irmãos portugueses, que nos deram de presente as primeiras noções de viver.
Eu era um menino que iniciava o seu entendimento sobre vida e abria toda a curiosidade para as inúmeras portas das descobertas.
E como se dizia antigamente, as coisas nos levavam para um grau de obediência aos inúmeros lusitanos, que aqui eram residentes.
Todos eles tinham melhores condições financeiras do que a maioria dos nossos brasileiros e ainda respondiam pela esperança de serem filhos de uma grande nação do “futuro”, o nosso grandioso Brasil.
Eles eram a história criada por um povo europeu que buscava mundo afora, os caminhos e os espaços para viver.
O primeiro português que eu conheci foi o senhor Oscar Portugal, morador da rua em que eu nasci.
Foi ele quem me ensinou a primeira pérola portuguesa, quando me disse: “- a vida é simples, são dois buracos, um que a gente nasce e outro que a gente morre”.
Assim, ainda criança, eu vi onde predominavam as forças dos lusitanos.
Ali, na rua onde eu morava, no bairro da Penha, no Rio de Janeiro, precisamente na Rua do Cajá, proliferavam os povos de Portugal.
Nessa mesma rua, hoje, o Governo do Estado pensa em realizar a construção da nova linha do metrô, onde deverá acontecer a ligação desse antigo bairro do subúrbio da Leopoldina ao aprazível bairro da Barra da Tijuca, o novo eldorado carioca.
Assim como servirá de apoio logístico da Copa do Futebol Mundial em 2014, propiciando toda a melhoria dos jogos das Olimpíadas de 2016.
Além do Senhor Oscar Portugal, ali naquela rua, também residia a trineta da Princesa Isabel , a dona Venina, a chamada Princesa Leopoldina que possuía nada mais nada menos, que duzentas e cinqüenta casas herdadas da família imperial.
Eu e minha mãe residíamos com toda a nossa família, numa daquelas grandes casas, que fazia parte daquele complexo imobiliário, por ela herdado.
A minha mãe apesar de muito jovem, desempenhava o papel de sua administradora de confiança, em todo o trabalho de recebimento mensal dos aluguéis.
A princesa Leopoldina a remunerava com salário e ainda uma das formas de pagamento era a moradia. Os demais moradores demonstravam uma grande ponta de ciúmes, porque não entendiam como uma pessoa viúva e tão jovem, podia exercer tão bem o papel de administradora, com tanta responsabilidade, jamais negligenciando das necessidades de reparos e obras nas casas de propriedade da Princesa, fossem ou não, solicitadas pelos locatários.
Na rua próxima, a Rua Dionísio, morava o senhor Laureano, filho do major Freitas, um português também milionário, que era dono das casas do lado esquerdo da rua do Cajá, que ocupavam dois quarteirões inteiros, com um conjunto de dezesseis apartamentos, todos com dois andares e gabarito autorizado pela Prefeitura, construídos por ele.
Possuía ainda uma outra vila, com também dezesseis casas, que faziam as ligações entre as duas citadas ruas, a do Cajá e a Dionísio.
O Sr. Laureano também era dono do maior frigorífico de carnes daquela localidade, que atendia os bairros da Penha, Olaria, Bonsucesso, Ramos e Circular da Penha, com os seus açougues.
Filho também do Major Freitas, era Hugo de Freitas Rocha, conhecido professor e dono do Colégio Nossa Senhora do Brasil, onde eu apreendi as primeiras letras.
Cito também o nosso armazém da esquina, que era de propriedade de outro lusitano, o senhor Gonçalo, que fazia o controle do vasto suprimento, com o famoso e antigo caderninho de compras, como um documento de crédito. Aquele armazém ficava bem próximo de nós e era o único do bairro mais próximo do super-mercado daquela época.
Seu proprietário, o Sr. Gonçalo foi o ex-patrão do meu pai na grande garagem municipal de Triagem, quando eu nem era ainda nascido.
Todas essas figuras citadas, todas de origem portuguesa, foram de muita importância para aquela região.

(Jorge Queiroz da Silva - agosto/2010)
Fonte da imagem:amateriadotempo.blogspot.com

domingo, 8 de maio de 2011

AS RAÇAS E ETNIAS DIFERENTES NO BRASIL DE OUTRORA

Aqui, no Brasil, em outras épocas mais remotas, nós tínhamos alemães, chineses, franceses, japoneses, italianos, mexicanos, poloneses e ainda, com certeza, todos os portugueses, os nossos descobridores, que aqui se estabeleceram e sempre ficarão.
Nos diferentes momentos, da minha vida profissional, há uns cinqüenta anos atrás, eu sempre tive que me adaptar às diversas situações de vivência e trabalho.
Para minha análise, saber conviver com etnias de raças bem diferentes umas das outras, foi uma sorte mutante.
Naquela época de minha vida, o Brasil representava um futuro eldorado, para um novo mundo modificado, e quem podia, vinha para cá se refugiar e progredir.
Já na minha turma de ginásio, lá na pré-adolescência, tinha colegas de descendências diferentes, de raça, cor e língua, e cujos nomes complicados, nos levavam a, em tom de brincadeira, chamá-los, a todos, pelos nomes de “sopa de letras”.
Logo no meu inicio de vida, me vi na necessidade de ter que ajudar a minha doce mãe, que enviuvou prematuramente aos vinte seis anos, pois meu pai falecera vítima de um fulminante infarto do miocárdio.
Eu, com meus onze anos e a minha pobre mãe, ainda bem jovem, vimos os nossos sonhos ruírem, pois nós dois, sempre dizíamos que meu pai era vítima de um excesso de trabalho, repetindo com palavras de um grito de alerta, que ele sofria demais com as mudanças constantes de horários nos seus diferentes turnos de trabalho.
Acontecessem esses turnos durante o dia ou durante a noite, ou em horários intermediários quando necessário fosse um período de trabalho extra, ainda assim ele não se recusava a fazê-lo.
As suas especializações se cruzavam no campo dos países emergentes, que assim como o nosso, tentava e buscava, ainda dentro do seu desenvolvimento, o seu “aqui e agora”.
Vivíamos então, duramente, os anos do após-guerras do último século, que seria para o mundo sempre uma grande ameaça presente, naquele desenrolar das mazelas deixadas pela segunda grande guerra mundial, deflagrada pelos nazistas e que eram radicados nas idéias de Adolf Hitler.
Na sua visão nazista o mundo era composto de sub-raças, que deviam ser dizimadas, como dizia em seus discursos, e é claro que todos os que viviam naquele tempo, tinham uma grande incerteza do que seria o amanhã.
Pelos motivos expostos e ainda mais pela situação do Brasil, tive que iniciar uma vida profissional ainda criança, para fazer frente aos meus estudos.
Assim, aos quatorze anos, para a garantia de pagamento da minha mensalidade escolar, que era de um valor alto, para crianças de classe média, comecei a trabalhar.
Sendo eu uma criança da classe “C”não poderia nem sonhar que viveria com a pensão deixada pelo meu pai, de um valor muito baixo, por ser a previdência social, uma instituição criada recentemente.
A cobertura desse seguro para as viúvas, correspondia a 50% da remuneração mensal do falecido, o que obrigou a mim e à minha mãe irmos para o mercado de trabalho, no ainda fraquíssimo comércio existente no país.
Naquela época difícil, era o Comércio que propiciava empregos, porque não éramos ainda um país industrializado e as grandes empresas, ainda estavam se instalando no Brasil.
Na sua grande maioria, toda a estrutura industrial, vinha de fora e estavam chegando para se refugiarem da grande crise européia, do após guerra, assim como também, para aproveitarem o baixo preço da nossa mão de obra ainda não especializada e de moeda fraca.
Essa era uma bela diferença,comparando com o nosso Brasil de hoje, e creio que se os nossos governantes trabalharem bem, politicamente, com segurança nos darão futuramente um título de sermos a nação mais sustentável da economia do Universo.
Completo a minha afirmação, dizendo que hoje nós temos um Brasil muito mais brasileiro.
Reafirmo isso, lembrando meu início de vida profissional, que me fez conviver, com franceses e italianos, na Indústria Química e Farmacêutica e na de Mobiliários, com alemães, nas áreas automotivas e de informática, com chineses e japoneses, nas áreas da agro-pecuária, o que me trouxe sempre uma vasta experiência, de grande utilidade, nas minhas posteriores aplicações profissionais.

(Jorge Queiroz da Silva - agosto/2010)
Fonte da imagem:cultura-etnia-genero.blogspot.com

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A primeira mala da vida

Quando por um acaso, ainda me chamam de “mala”, eu simplesmente não me contrario, pois sei que tudo que acontece em nossa vida, diz respeito realmente a “mala” que recebemos ao nascer e a uma outra “mala” que vai ser responsável pela nossa última viagem, aquela em que reunimos todos os projetos que regeram os nossos destinos de vida, aqui na terra.A primeira mala nos diz exatamente sobre a nossa perspectiva de vida, porque quando nascemos e quando recebemos a nossa primeira mala, ao analisarmos o seu conteúdo, ele por certo nos indicará as facilidades e as dificuldades que se apresentarão ao longo do nosso caminho.Não posso esquecer, que quando nasci, filho de família pobre, minha mãe preparou a minha primeira mala de vida para me receber e num processo cuidadoso e de muita luta para que nada me faltasse, ela conseguiu reunir as principais peças de roupas, para o meu agasalho, e dito por ela, a maioria delas, teriam sido doadas, pela nossa vizinhança.Tudo parecia perfeito, eu já tinha a minha primeira mala de vida e minha mãe aguardava bem segura, a minha chegada. Mas, infelizmente, nem tudo que se planeja acontece, e por obra genética, eu nasci fora dos moldes normais de um recém nascido.Cheguei ao mundo com 55 cm de comprimento e o peso de uma criança de três meses, pois eu nasci com 5,2 gramas.Por aí já sentimos, que a minha primeira mala de roupas e agasalhos , não funcionou!Mas minha mãe, era uma filha do otimismo e rapidamente, conseguiu a ajuda de uma senhora de origem Libanesa, e que por sinal, minha mãe só a chamava, por não saber seu nome, de “Dona Libânia”.Essa senhora residia na última casa da Vila onde morávamos e conforme minha mãe contou depois, foi essa mesma senhora, que lhe deu um prato de bacalhau, que havia lhe despertado desejos de comer, antes do meu nascimento.Para que eu não nascesse babando ou com os cabelos arrepiados, a “Dona Libânia” foi muito gentil com a minha mãe, dizendo que se ela tivesse mais algum outro desejo provocado pelo cheiro saboroso da sua comida , que ela não fizesse cerimônias, garantindo assim que não deveria me aguardar com desejos não realizados.E assim então, minha mãe , que na época tinha apenas quinze anos, venc eu a primeira etapa de dificuldades da minha vida, pois além de comida, minha mala ganhou roupas também!.

(Jorge Queiroz da Silva - abril/2009)

Fonte da imagem:adrianaerenato.blogspo...