Lendo e ouvindo a música

Desenhos de Jorge Queiroz da Silva

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Minha tia Didi

Minha tia Didi era mulher de um outro tio, o Odilon, aquele solteirão, que vivia em nossa casa, encostado e dormindo na sala de minha mãe.Ele era despachante oficial da Prefeitura da Cidade e dava por isso muita movimentação de pessoas em nosso ambiente familiar, uma vez que , sempre tínhamos em nossa porta, nos finais de semana, pessoas que ele atendia, para registros públicos. Era um chegando e outro saindo, e eu tive sempre muita pena da minha mãe que ficava numa berlinda danada, contando mentiras para, aliviar um pouco aquele jeito de despachante relapso, junto ao serviço público.Ele ainda tinha um outro problema, era juiz de futebol, e naquela época, aumentava a pressão encima da minha pobre mãe, pois quando ele prejudicava algum clube de grande torcida, nós não tínhamos sossego até tudo cair no esquecimento.Com tudo isso para atrapalhar, a futura tia DIDI, que era a “cocotinha” da vez e era a mais jovem de todas as outras , decidiu namorar o meu tio assim mesmo.Ela era nossa vizinha e filha de uma família de gaúchos, que já residiam lado a lado da nossa casa há muitos anos. Chamava minha atenção por ser bem mais jovem e eu não conhecia tias jovens e pela grande amizade que mantinha com minha mãe. O namoro foi promissor, exatamente por ser vizinha. Fortificou-se assim, o desejo de se tornar minha “tia Didi”. Era de todas elas, a mais manhosa e constantemente estava em nossa casa, usufruindo dos conselhos de minha mãe que era incansável em ajudá-la. A todo e qualquer problema que acontecia com meu tio, fosse ele de ordem pessoal ou profissional, lá estava a tia Didi para desabafar com a minha mãe. Já tínhamos essas situações como rotina e por muitos anos, vivíamos em função dos feitos de meu tio e das queixas da tia Didi.Isso só terminou, quando num determinado dia da sua vida , precisamente no dia de São Sebastião, e primeira sexta-feira do ano, meu tio decidiu ir na Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca, o que era um hábito dos católicos, para tirar o peso das costas, que o acompanhava nos seus negócios de despachante. Crendo que só essa benção iria ajeitar sua vida , ficou tão leve, tão leve, que subiu, para uma nova vida, pois morreu no sábado dando fim a todas as queixas, que diariamente, a tia “Didi” fazia à minha mãe. Sua morte, conseqüentemente, terminou com o grande movimento de lojistas na minha porta e deu paz a tia Didi.
(Jorge Queiroz, abril/2009)
Fonte da imagem:amigasdopeito.org.br

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