Lendo e ouvindo a música

Desenhos de Jorge Queiroz da Silva

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Minha tia Ormezinda

Hoje vou falar de minha tia Ormezinda. Pra’ começar, esclareço que ela era a mais autêntica tia “paraguaia”, aquela que chega em nossa vida sem nenhum vínculo de sangue ou de família. Foi assim a tia Ormezinda. Agregou-se à nossa família com toda a sua garra e acabou se tornando a tia mais eficaz e verdadeira, aquela que participa do nosso dia a dia e tudo faz para provar ser ela a melhor das “TIAS”. Num determinado dia, quando eu contava apenas dois anos, bateu à porta de minha casa e trazia ao colo a sua primogênita, ainda bebê. Perguntou à minha mãe se ela não tinha um cômodo para alugar por apenas de três meses, pois ela tinha sido despejada da casa do seu pai, depois de uma briga que ocorreu entre o seu pai e o seu marido. Aí então minha mãe disse que ia falar com o meu pai, dando-lhe uma resposta no dia seguinte. Ela insistiu muito e quase implorou por ajuda e compreensão, pois não tendo encontrado nenhum lugar e procurando há mais de seis meses, precisava resolver a difícil situação porque, inclusive, o marido já não estava mais na casa dos pais dela, razão pela qual já estava passando necessidades. Minha mãe penalizada, realmente pediu ao meu pai, alegando que tínhamos um cômodo vazio e que podíamos abrigar provisoriamente aquele casal. Meu pai concordou, homem benemérito que era e assim eles vieram morar na nossa casa. O que era provisório tornou-se permanente e por lá ficaram por mais de 46 anos. Minha tia ficou tão íntima de minha mãe que pareciam irmãs. Realmente ela foi a “tia” que apesar de postiça, foi a mais presente que conheci e tive por perto. Defendia-me com unhas e dentes nas brigas de rua utilizando a mesma vassoura que varria o jardim da nossa casa. Acompanhava todas as fofocas da vizinhança e o interessante era que todo defunto que se enterrava nas proximidades era maquiado e vestido por ela que também se encarregava de enfeitar o caixão. Uma vez a assisti apartando uma briga, entre o “Tião peixeiro”, um caboclo muito forte e o bicheiro mais famoso da localidade o “ Jararaca”. Era melhor do que homem para essas coisas. Ela era atenta a todo movimento de rua e não deixava que ninguém maltratasse ninguém. Era muito decidida e de vez em quando, rolava pelo chão brigando com o marido. Nessas, até minha mãe quando tentava separar os dois, levava bofetadas. Foi um exemplo de tia decidida, segura. E como era boa de temperos. Na cozinha, ninguém a derrotava. Tenho várias lembranças boas dessa tia, mas a que mais me marcou foi quando eu estava com oito anos de idade. Atravessava eu a vila de uma rua para outra, quando fui cercado por quatro meninos de rua, que me pegaram à força, iniciando uma série de torturas além de espremeram no meu rosto uma boa dose de pimenta malagueta. Naquele momento, eu só gritava por socorro e sentia os meus olhos queimarem demais. O contato das pimentas com as mucosas já provocava uma rápida inchação e um forte edema. Como uma aparição, não sei de onde, naquele exato momento, surgiu minha querida tia Ormezinda. O espetáculo que ela deu quando me viu, foi digno das melhores platéias. Empunhando aquela sua arma favorita - sua “vassoura terrível” que compunha o seu uniforme de super heroína, saiu correndo atrás dos garotos que me fizeram mal, castigando-os pelo feito. Desde aquele tempo eu passei a entender que às vezes a vassoura pode ser arma não só de bruxa, mas também de fadas salvadoras.

(Jorge Queiroz da Silva - fevereiro/2009)

Fonte da imagem:dinorahcomaganofim.blo...

Um comentário:

  1. Essa tia era do barulho! Engraçado como todos nós temos em nossas vidas, pessoas assim, que marcam profundamente por suas atitudes corajosas e autênticas. Muito legal essa sua iniciativa de rememorar e homenagear não só seus antepassados, como também muitas outras figuras que passaram pela sua vida. PARABÉNS!

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