Lendo e ouvindo a música

Desenhos de Jorge Queiroz da Silva

domingo, 1 de julho de 2012

Ajudando alguém sem saber a quem...(outra história)



Essa é uma antiga história da década de sessenta.
Na época, eu trabalhava na indústria química e farmacêutica e era chefe de planejamento de produção, com a obrigação de iniciar no serviço no momento em que soava o apito da fábrica. Isso ocorria normalmente às 7.30 horas da manhã.
A indústria se situava na rua São Miguel, na Tijuca, a uns duzentos metros da subida do famoso morro do Borel, onde ficava a sede da Escola de samba vencedora do carnaval de 2010, a Unidos da Tijuca.
Lá também, hoje, o governo estadual instalou a mais nova UPP- Unidade Pacificadora de Polícia, composta do maior número de policiais.
Não consigo esquecer da feira que se instalava ali todas as quartas- feiras, na pracinha logo abaixo do Hospital da Ordem Terceira da Providência.
Diàriamente, quando eu me dirigia ao trabalho, após descer do ônibus na referida praça, eu seguia a rampa e me encaminhava para o acesso da rua do laboratório e nas quartas-feiras a feira me fazia sempre dar voltas e voltas para contornar as armações de barracas de frutas, peixes, legumes etc. já espalhadas pela pracinha.
Numa determinada quarta-feira, consegui atravessar a feira quando vi uma pobre senhora, que carregava um carrinho já lotado e ainda tinha pendurada no seu braço esquerdo, uma sacola pesada e também cheia de frutas, legumes . Fiquei penalizado e chamei-a, propondo-me a auxiliá-la. Meio sem jeito, ela respondeu que morava distante, pedindo que eu não me importasse. Diante da minha insistência ela aceitou e contente, disse que eu quando chegasse à sua casa, ia conhecer seu filho.
Quanto mais andávamos, mais subíamos o morro.
A senhora vendo meu cansaço, repetia que tinha me avisado que morava longe. Em resposta, eu dizia que não fazia mal porque ela me lembrava muito a minha mãe.
Em cada viela ou beco da favela, por onde passávamos, eu ficava assustado com os olhares dos moradores que me fitavam indagadores, pois percebiam que eu não era do morro, e, além de tudo, eu subia acompanhado de uma moradora de lá.
Após uns quarenta minutos andando, chegamos no barraco de chão batido. Comecei então a tirar as coisas do carrinho, quando, de repente, entrou suado e esbaforido, um mulato forte, de bigodes finos e camisa aberta no peito. Ele, com os olhos arregalados e com o pescoço ornado de cordões de ouro, olhou para mim e perguntou à mãe quem eu era.
Orgulhosa, ela respondeu que eu era um moço que ela havia encontrado na feira e que quis lhe ajudar a trazer as sacolas. Não esqueceu de dizer que eu a tinha achado parecida com minha mãe.
Diante do fato, o rapaz me estendeu a mão agradecido, dizendo-se também meu amigo e se oferecendo para descer comigo.
Ao me despedir da senhora, perguntei o nome do seu filho e ela respondeu que eu não precisava saber seu nome, frizando que quando eu quisesse lá voltar, apenas dissesse que ia visitar o dono do morro!

Fonte da imagem:citynet.com.br

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