Lendo e ouvindo a música

Desenhos de Jorge Queiroz da Silva

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

COMER CARNE UM DESEJO, CRIAR O BOI BEM CRIADO, UM INFORTÚNIO

Eu e o boi, um encontro quase constante, um encontro que vem da época da última guerra mundial, quando ainda nada desse bicho eu entendia.
A indignação me mostrava que em nosso país, uma base natural da alimentação do nosso povo vinha dos açougues.
A carne no prato de cada brasileiro era básica, com todas as opções possíveis, nos mostrando que tínhamos um mercado variado em relação ao aproveitamento quase total.
Eu sempre ouvia dos antigos as frases mais ousadas, que nos diziam, que do boi, nós só não aproveitávamos o chifre, as unhas, o pêlo e os dentes.
E me recordo bem, como se fosse hoje, que na época da guerra, tínhamos um racionamento diário de produtos básicos na área da alimentação.
As famílias eram atendidas, recebendo tíquetes de cada tipo de comida, separadamente, e com estimativas necessárias, passada pela ordem, de acordo com o número de pessoas integrantes de cada grupo familiar.
Como sempre, em todos os negócios em que os homens se metem, as coisas viram jogos de interesses pessoais, eu me lembro bem, que a distribuição dos tíquetes de quantidades, eram de prazos semanais, mas o mercado do câmbio negro, que sempre custeava as guerras, eram diários, não deixando passar aquela grande oportunidade, de criar os diferentes oferecimentos financeiros, para tirarem vantagens das famílias inscritas no programa.
Essas famílias, com ou sem numero de participantes, vendiam pelas ofertas mais malucas e com deságios, os tipos mais interessantes de diferentes alimentos naquela negociação, criando,com certeza, um mercado comercial em paralelo, de venda de vales de feijão, arroz, carne, leite, pão, ovos etc.
Eu era um menino de seis anos, quando houve a implantação da forma desse novo sistema de racionamento, por tíquetes de compra, e era sempre nas longas filas de compras, que eu ficava muito ofendido, com os tipos de ofertas, que me faziam para pegarem os meus tíquetes de carne, feijão, arroz, pão etc...que minha mãe me orientava a fiscalizar.
O mercado brasileiro da época era suficiente para o sustento do nosso povo, que não ultrapassava os quarenta milhões de habitantes nos idos tempos da década de trinta.
Nessa época, nós tínhamos muito pasto, muita mata e ainda muitos rios e lagos que mantinham para nós, brasileiros, a grande esperança de sermos o que somos hoje, os maiores produtores de gado de carne no mundo.
Mas naquela época, devido ao ganho individual das famílias brasileiras, a
nossa carne para o povo era a chamada carne de segunda, que faz parte do dianteiro do boi e para apressar a arroba, ficávamos sempre com um residual de ágio muito forte para as carnes do traze iro, que são as mais apetitosas e macias e que pelo alto preço, pertenciam as classes A e B.
Isso, sem falarmos no famoso filet mignon, e na famosa picanha.
Eu, que era oriundo da classe “C”, sentia que meu pai fazia um grande sacrifício para nos dar os melhores tipos de carnes, o que na fase da guerra, era impossível de se ter em casa.
Por isso, até hoje, eu gosto e muito, de alguns tipos das carnes do boi e até de seus chamados miúdos, que me acostumei a comer em pleno exercício da guerra mundial da Itália.

(Jorge Queiroz da Silva - agosto/2010)
Fonte da imagem:permutalivre.com.br

Um comentário:

  1. Quanta experiência! quanta sabedoria se adquire na vida. Também eu sei o que é comer carne de segunda e miúdos. Hoje podemos dizer que somos felizardos porque apesar das dificuldades de nossos pais conseguimos ter uma vida melhor que a deles. E, se julgarmos pela oportunidade de ter internet em casa isto quer dizer que fazemos parte de uma minoria em um país tão fantástico e cheio de farturas, mas que infelizmente muitos ainda não têm acesso.
    Bom encontrar pessoas como você vê a vida de forma poética. Também faço isto. Mesmo nos momentos mais difícieis procuro distrair meu pensamento observando coisas simples como uma flor, um pássaro, a beleza da Lua ou do sol.
    Grande abraço e obrigada pela visita. volte sempre.
    Angel

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