Lendo e ouvindo a música


Fofas


Desenhos de Jorge Queiroz da Silva

quinta-feira, 8 de março de 2012

A primeira mala da vida

Quando por um acaso, ainda me chamam de “mala”, eu simplesmente não me contrario, pois sei que tudo que acontece em nossa vida, diz respeito realmente a “mala” que recebemos ao nascer e a uma outra “mala” que vai ser responsável pela nossa última viagem, aquela em que reunimos todos os projetos que regeram os nossos destinos de vida, aqui na terra.
A primeira mala nos diz exatamente sobre a nossa perspectiva de vida, porque quando nascemos e quando recebemos a nossa primeira mala, ao analisarmos o seu conteúdo, ele por certo nos indicará as facilidades e as dificuldades que se apresentarão ao longo do nosso caminho.

Não posso esquecer, que quando nasci, filho de família pobre, minha mãe preparou a minha primeira mala de vida para me receber e num processo cuidadoso e de muita luta para que nada me faltasse, ela conseguiu reunir as principais peças de roupas, para o meu agasalho, e dito por ela, a maioria delas, teriam sido doadas, pela nossa vizinhança.
Tudo parecia perfeito, eu já tinha a minha primeira mala de vida e minha mãe aguardava bem segura, a minha chegada. Mas, infelizmente, nem tudo que se planeja acontece, e por obra genética, eu nasci fora dos moldes normais de um recém nascido.
Cheguei ao mundo com 55 cm de comprimento e o peso de uma criança de três meses, pois eu nasci com 5,2 gramas.
Por aí já sentimos, que a minha primeira mala de roupas e agasalhos , não funcionou!
Mas minha mãe, era uma filha do otimismo e rapidamente, conseguiu a ajuda de uma senhora de origem Libanesa, e que por sinal, minha mãe só a chamava, por não saber seu nome, de “Dona Libânia”.
Essa senhora residia na última casa da Vila onde morávamos e conforme minha mãe contou depois, foi essa mesma senhora, que lhe deu um prato de bacalhau, que havia lhe despertado desejos de comer, antes do meu nascimento.
Para que eu não nascesse babando ou com os cabelos arrepiados, a “Dona Libânia” foi muito gentil com a minha mãe, dizendo que se ela tivesse mais algum outro desejo provocado pelo cheiro saboroso da sua comida , que ela não fizesse cerimônias, garantindo assim que não deveria me aguardar com desejos não realizados.
E assim então, minha mãe , que na época tinha apenas quinze anos, venc eu a primeira etapa de dificuldades da minha vida, pois além de comida, minha mala ganhou roupas também!
(Jorge Queiroz -abril/2009)
Fonte da imagem:numacaixinhademusica.blogspot.com

quarta-feira, 7 de março de 2012

Minha simpática convivência com meu tio Nilo

Meu tio Nilo foi um dos meus sete tios. Tendo nascido de parto prematuro aos seis meses de gestação, teria menos possibilidade de viver com saúde, ainda mais numa época em que tudo era muito complicado. Como dizia minha mãe, nascer era tão problemático, como morrer. Lembro que nas historias de família, mamãe contava que o seu primeiro berço foi uma caixa de sapatos, pois como prematuro de extremo risco, necessitava de cuidados muito especiais para sobreviver. Podemos imaginar a dificuldade da família para que na altura dos seus vinte anos, sem qualquer recurso especial, ele pudesse ser considerado uma pessoa de saúde normal. No entanto, de todos os meus tios, era o mais inteligente, embora tivesse o menor grau de instrução. Em compensação, foi durante toda a sua vida, o melhor dos tios e o que mais valeu à minha mãe, sendo sempre o seu fiel escudeiro. Morou em nossa casa até o término da sua vida e era um ser bem diferente dos demais. Não tinha muito juízo, mas alegrava todos os nossos almoços de domingo, com suas brincadeiras e grande otimismo. Era quem ajudava financeiramente a minha mãe, visto que a contemplava com um pouco do resultado das gorjetas que recebia. Assim, agradava minha mãe pelos cuidados especiais que lhe devotava com o bom trato de suas roupas e com sua alimentação. Aliás, minha mãe tornou-se sua protetora, desde a morte de minha avó. . Na época, apesar da pouca idade em relação a ele, sempre cuidou , para que ele pudesse ter algum rendimento, que lhe garantisse o dia de amanhã. Deu-lhe algumas idéias para que pudesse ter algum dinheiro, um ganho como autônomo, pois era um participante ativo, das nossas noites cariocas, no Edifício Avenida Central, na Avenida Rio Branco. Sempre nos dias de Natal e Ano Novo, ele fazia questão de brindar a todos, com uma pequena lembrança, e não nos poupava dos seus famosos e engraçados discursos otimistas, onde sempre dizia, que todas as pessoas daquela mesa de ceia, um dia ainda iriam se banhar em muito dinheiro! E era aquela saudação na passagem de cada ano, que sempre nos trazia alguma alegria, porque, em segundos, ele nos transformava em raros milionários na sua forma otimista de nos ver, falando com bastante ênfase, de pé, na cabeceira da mesa de Natal. Não possuía nenhum certificado escolar ou profissional, apenas uma carteira de identidade, mas, mesmo assim, conseguia ganhar dinheiro como ninguém. Causava inveja a muitos chefes de família, com os ganhos recebidos com um sub-emprego, o de abrir as portas dos carros, na entrada do Jóquei Clube do Brasil, na sua antiga sede na Av. Almirante Barroso. Era um guardador dos carros oficiais, que naquela área, ficavam sob sua responsabilidade. Trabalhou ali, por mais de trinta anos. No exercício do seu trabalho, teve a oportunidade de se aproximar naturalmente, de todos os Ministros, Juízes, Senadores, Deputados e até mesmo, do Presidente da República, o Getúlio Vargas, chegando, nessa oportunidade a abrir as portas do carro do consulado Americano, que conduzia o Presidente Roosevelt, freqüentemente no Brasil, faturando a sua primeira gorjeta em dólares. Também servia nas portas dos Clubes, inclusive o Clube Naval. Era muito o que ganhava com as gorjetas, abrindo as portas dos automóveis luxuosos dessas autoridades, visto que empatizava com todos. Minha mãe sempre dizia que se ele tivesse tido juízo, teria feito um excelente pé de meia. Por trabalhar na rua e devido a sua grande facilidade de ganho, dele se aproximavam também as prostitutas, os homossexuais, os mendigos e os cachaceiros das noitadas, que se faziam de amigos, para o levar para beber, com a finalidade única, de lhe tomar dinheiro. Ele se trajava sempre com roupas de primeira qualidade, e o interessante é que nunca gastou o dinheiro do seu trabalho, para comprar suas vestimentas e sapatos, pois ganhava daquelas autoridades. Às vezes, com orgulho, exibia um par de sapatos que não usava em respeito ao dono, o Getúlio Vargas. Infelizmente, a bebida que lhe faziam pagar na rua, não só prejudicava no resultado do seu trabalho e ganho, como também, o levavam a um estado de total embriaguez, que o fazia até dormir pelas calçadas da Cidade. Quantas e quantas vezes eu, ainda menino, com muita pena, tentava lhe levantar do chão frio e até molhado pela chuva. Quando ele conseguia chegar em casa, normalmente estava totalmente sujo, o que causava um impacto pela desconexão com sua roupa alinhada . Cheirando mal, levava minha mãe ao desespero, quando entrando pela porta da nossa casa a dentro, gritava por ajuda, fingindo estar sendo vitima de forte dor de barriga. Lembro-me de minha mãe clamando pelo Deus do Céu, Jesus Cristo e Nossa Senhora, enquanto mandava que ele fosse direto para o banheiro, pegasse as roupas e as jogasse no molho direto no tanque de roupas, para que depois cuidasse delas. Mesmo assim, com todas as dificuldades de vida, ele sempre foi, dos meus tios, o mais honesto, o mais consciente com a minha mãe, aquele a quem eu mais respeitava e com quem mais conversava. Recordo-me de que me trazia balas e pequenos brinquedos, ajudava ainda nas compras de meus cadernos e livros escolares. Era dono do maior otimismo de vida, pois a convivência que ele manteve com autoridades e políticos, sempre o levaram ao delírio! Foi um importante personagem na minha vida infantil, que me fez ouvir pela primeira vez o nome de milhões de contos de reis, a moeda da época, muito difícil de se ganhar. Duvido muito, se qualquer outra pessoa, que mantivesse um papo com ele de, pelo menos dez minutos, não passasse a se sentir um grande milionário ! Lembro também, que às vezes, meu pai, muito nervoso com suas histórias, queria expulsá-lo lá de casa, principalmente por ele fazer minha mãe passar por todos aqueles momentos inconvenientes. Eu era ainda um menino e a historia mais incomum que ouvi a seu respeito foi aquela, em que ele, na tentativa de imitar os guias espirituais de minha mãe e de outras pessoas que eram ligadas à religião, se instalou na casa de uma mulher de vida fácil. Lá longe de nossa casa, na Baía da Guanabara, se fazia passar por um guia conselheiro, incorporando simuladamente o “Caboclo Mamador” , que baixava dizendo - Caboclo, mamador, Caboclo, quer mamar - e só atendia as mulheres, mais jovens residentes naquela região, onde ele era totalmente desconhecido, Além de ganhar pelos trabalhos, ele ainda criava em volta dele, um circulo só de mulheres jovens, que curiosas e ansiosas para obterem os milagres de vida, em relação a casamento, obedeciam as suas ordens quando pedia que colocassem seus seios para fora. E ele saia mamando e repetindo que ao mamar, ele traria bons fluídos às consulentes. Daria força às mulheres para arranjar um bom casamento com um rico pretendente ou um bom emprego. E eu só vim a saber dessa história, depois que os jornais de Niterói noticiaram a fama do caboclo mamador. Não preciso dizer que ele foi detido, os jornais fizeram publicação a respeito, mas felizmente para ele, por ser réu primário, foi liberado pela policia, depois que fizeram o pagamento da fiança. Portador de leve deficiência mental, uma leve esquizofrenia, foi ainda apoiado pela própria justiça, que classificou as mulheres, que lhe deram o seio para mamar, de sem-vergonhas, inexperientes, frizando que elas colaboraram diretamente, para que ele se utilizasse daquela farsa espiritual ! Lembro também da tristeza de minha mãe, quando soube das noticias que corriam nos jornais. - repetia sem parar : que vergonha, que vergonha, meu Deus! Não sei o que fazer com o Nilo! Desse dia em diante, o tio Nilo, passou a ser um homem mais caseiro, deixando que as prostitutas do centro da Cidade, tomassem conta do dinheiro de seu trabalho honesto, como recepcionista das autoridades de Governo.
(Jorge Queiroz da Silva - agosto/2010)
Fonte da imagem:sejacritico.wordpress.com

terça-feira, 6 de março de 2012

Minha tia Jandira

Falo hoje da minha tia “ Jandira”, que era minha madrinha, casada com meu tio Arnaldo.Apesar de muito pequeno, lembro que ela passava temporadas em nossa casa, com os seus três filhos, Maria Amélia, Ailton e Francisco. Isso se dava sempre que ocorria uma das constantes transferências de trabalho do meu tio Arnaldo.Ele, que naquela época, era o Chefe Geral das Águas no Estado do Rio de Janeiro, e tinha sob seu serviço a implantação do projeto de base do Rio Guandu e de Xerém, não conseguia ter uma residência fixa, pois era obrigado, a acompanhar os deslocamentos de toda a rede de ampliação do sistema de distribuição de águas da cidade, como também a do interior do Estado. Ainda para agravar o problema, em cada cidade que o meu “tio”, se instalava, ele conquistava uma nova mulher, montava uma nova casa, e a pobre da minha tia “Jandira”, ficava longos períodos em nossa casa.Recordo-me que minha mãe, penalizada, sentia-se na obrigação de ajudar a essa cunhada.Isso era próprio de minha mãe, que associava ao nosso convívio, mais e mais famílias.Nossa casa mesmo sendo grande, como as residências daquela época, cada vez mais se tornava pequena, pois já existiam outras pessoas ali abrigadas, na casa e no grande coração de minha mãe.Como nunca nada é para sempre, felizmente, essa situação de dividir tudo com meus primos, só veio a se modificar, no dia em que meu tio Arnaldo faleceu.Assim, minha pobre tia pode, como pensionista, viver bem e ter uma residência fixa, aqui no Rio de Janeiro, onde nós a visitávamos nos finais de semana.

(Jorge Queiroz da Silva - abril/2009)

Fonte da imagem:borgesresgate.blogspot...

segunda-feira, 5 de março de 2012

Foi muito legal te conhecer vivo, meu pai!

Meu pai, já fazem mais de 53 anos e ainda te sinto vivo.
Confesso que nos separamos há mais de meio século.
Sei que você não morreu e está bem vivo dentro de mim.
Hoje brilham em minha cabeça as luzes de uma grande soma de esperanças.
Escrevo hoje, o que já deveria ter feito há muitos anos. Tento colocar a minha emoção e buscar nos poucos anos que tivemos juntos aqui na Terra, todos os exemplos de vida que você me passou.Lembra, meu pai, quando me contou os principais motivos que o fizeram deixar a sua Olinda querida, no bairro de “Casa Amarela” em Recife, com apenas quatorze anos de idade? Que força de vontade trazia aquele menino para enfrentar a vida numa Cidade grande e politicamente vigiada por ser a Capital da República do Brasil! Aquela história de que a sua família era densa eu comprovei pelo retrato de casamento da sua irmã mais velha. Ali estavam reunidos meus avós que não pude conhecer, meus tios e tias, ao todo uns quinze componentes. E você deve estar lembrado, que me contou, que o meu avô era um homem de uma estatura impressionante, para o brasileiro daquela época, pois ele atingia 2,15 metros.E ainda por cima, me disse que ele dava espetáculos em praça pública, deitando-se no chão e cobrindo-se de pranchas de madeira. Sua exibição consistia em que os carros da época passassem sobre o seu corpo demonstrando uma força de um “Hércules”. E ainda acrescentou que ele foi assassinado por um dos invejosos daquela Cidade, porque em razão do sucesso, ele era desejado por quase toda a maioria das mulheres.Isto provocava um grande ciúme nos maridos que se achavam preteridos. Algum deles, mais enciumado acabou por matá-lo a tiros, em plena praça pública.Foi aí então, que se iniciou a sua via crucis, pai. Você foi obrigado a morar com o seu irmão mais velho já casado e a sua vida não teve mais sossego, pois apanhava muito desse irmão. Você foi obrigado a deixar a cidade sozinho, para se ver livre dos maus tratos. Aqui chegou ainda menino, se empregando em uma padaria no bairro do Rocha aqui no Rio de Janeiro.Ali mesmo, com o consentimento do seu primeiro patrão, fez dos sacos de farinha a sua cama e casa, e ali trabalhava entregando pão, pela madrugada afora.Essa foi sua dedicação para a vida, que enfrentou sem medo, até os dezoito anos.Teve outra oportunidade de trabalho, quando foi convidado pelo dono de uma garagem vizinha, a ser seu novo empregado, e a partir dos seus vinte anos de idade, recebeu o apelido de “Paulista”, apesar de ser pernambucano, mas oriundo do Município, que tinha o mesmo nome.Ali você cresceu profissionalmente, tendo sido o homem de confiança, controlando todos os estoques de combustíveis durante a Segunda Guerra Mundial e sempre com muita honestidade, não se deixou levar, pelo câmbio negro da gasolina, que se implantava naquela época dos carros a gasôgenio, nunca tendo se favorecido da sua posição, pois a lei determinava, que a venda e o fornecimento de gasolina, só poderiam ser feitos às autoridades públicas e às áreas de saúde. Sua grande honestidade e lisura não o fez ficar rico ilicitamente, apenas ficou amigo de brasileiros ilustres. E como prêmio, por essa honestidade no seu trabalho, ganhou do seu patrão o título de sócio-gerente, que nem chegou a exercer, pois foi da vida afastado, provisoriamente pelo nosso bondoso “Deus”.Talvez quem sabe, para uma missão muito especial, que ainda vou com certeza saber o motivo futuramente, depois de lhe dar um longo abraço fraterno.Devo acrescentar, que nesse caminho de 23 anos aqui no Rio, você incluiu em sua vida uma fluminense nascida em Niterói, que por força do destino, também era órfã de mãe e que tinha por necessidade residido na casa da sua cunhada com o seu irmão mais velho e que por coincidência, também sofria maus tratos, após o seu pai ter sido afastado, por motivos políticos, do cargo de Diretor-Tesoureiro Geral dos Correios, que ocupava na então Capital Federal pela convocação feita, pelo Dr. Washington Luiz, o então presidente da República.Ela, minha mãe, sofreu também iguais dificuldades de vida, quase que as mesmas coisas que você.Você sabe bem dessa história, meu pai. Ela me contou que a necessidade em casa era tanta, que ela começou o namoro contigo e que você a conquistou, quando lhe deu um pacote de manteiga, que ela já não comia há muitos anos, pois quando o pai dela, o meu avô, foi afastado do cargo que ocupava, ela perdeu uma boa casa, instrução, o estudo de piano, suas roupas, suas bonecas, e sua formatura de professora, que só faltava um ano para completar.Mas o exemplo de vida a dois, ficou estampado nessa união e hoje me sinto feliz, muito feliz, em ter sido filho único de uma tão completa união a dois, que hoje tento reproduzir com a minha cara-metade, que representa grande incentivo de novas descobertas porque a manutenção de vida é um ato contínuo e sem desprendimentos.Minha grande intenção para o fim da minha vida, quando ela chegar, meu Pai, é te encontrar e sei que estará junto à minha mãe, que já se acha ao seu lado há algum tempo.
Espere por mim, meu pai !
(Jorge Queiroz - junho/2010)
Fonte da imagem:revistadesafios.blogspot.com