Lendo e ouvindo a música


Fofas


Desenhos de Jorge Queiroz da Silva

sexta-feira, 16 de março de 2012

Os meus primeiros dias de aula na escola

Os meus primeiros dias de aula na escola, sempre me trouxeram problemas, por mais que fossem recomendados por minha mãe. Eu tinha apenas quatro anos e não conseguia definir direito o momento exato de atender ao pedido da professora para que me dirigisse à sala de aula. Apesar de minha mãe explicar diariamente que sempre que a professora chamasse os alunos do primeiro ano eu deveria subir, eu aguardava o chamado e não entendia porque não era chamado.A explicação para o fato era que a professora só usava a expressão, “ a primeira classe pode subir”, e eu ficava no pátio do Colégio, sozinho, esperando. Eu esperava que ela chamasse exatamente, como a minha mãe me dizia, e, com isso, sempre perdia a primeira aula. Quando chegava em casa e falava para minha mãe, ela não conseguia entender , até o dia em que eu usei a expressão da professora, comparando-a com a da minha mãe. Dessa forma foi desvendada a grande confusão e aí então, pude participar de todas as aulas, inclusive da primeira.
(Jorge Queiroz da Silva - abril/2009)
Fonte da imagem:blogdalazinha.com

quinta-feira, 15 de março de 2012

Mais um fato hilariante da minha infância...


Tinha eu apenas cinco anos e era assíduo frequentador do cinema “Penha”, onde eu sempre ia em companhia de minha mãe.Era um dos mais antigos do subúrbio e tinha o mesmo nome do bairro.Naquela época, sempre abusava do direito de realizar as chamadas sessões de promoções, apelidadas de “sessões do mizerê”.Essas sessões se davam normalmente, em todas as quartas-feiras da semana.Vivíamos um daqueles grandes momentos em que estava no auge os “musicais ” mais famosos do cinema americano.Eu e minha mãe íamos sempre acompanhados de minha tia Ormezinda e de sua filha Norma, pois ambas moravam na nossa casa.Resolvemos ir num determinado dia de estréia de um daqueles famosos musicais, que hoje não me recordo o nome, e naquele dia também se inaugurava o novo ar refrigerado do cinema.Os cinemas e grandes casas comerciais estavam começando a substituir os grandes ventiladores, que eram causadores de diferentes tipos de acidentes.Antes da inauguração, os amigos do bairro já comentavam e instruíam uns aos outros sobre o clima frio no ambiente.Amigos e familiares diziam para não esquecermos de levar os agasalhos, porque lá dentro as crianças poderiam não resistir.Loucos para experimentar a grande novidade, seguimos para o cinema, portando nossos casacos.Já na fila para compra dos ingressos, nos preparamos, vestindo os agasalhos, mas a Norma, muito teimosa, não quis vestir o seu.Adquirimos as entradas e caminhamos para o salão de projeção,pois o filme por ser estréia, tinha atraído um grande público.Eu e minha mãe, entramos na frente e a tela já exibia uma dança maravilhosa de Fred Astaire com sapateados e vedetes com suas plumas extravagantes.Minha tia, maravilhada, segurava a menina pela mão e com os olhos fixos na tela, sem se dar conta, gritava para a filha: “dança Norma”, “dança Norma”, “dança Norma”...Pudemos observar que ela tentava vestir o casaco na menina, mas presa pelo filme, ao invés de dizer veste, Norma!, dizia dança, Norma!, pois na tela, uma dança frenética, prendia a atenção total de qualquer expectador.Minha prima Norma, a cada grito da mãe, não entendia nada e muito nervosa, assustada e chorando, respondia para a mãe que não queria dançar.Nessa altura, toda a platéia já tinha os olhos fixos em minha tia, pois o fato estava atrapalhando a assistência. Não fosse minha mãe por um fim naquele diálogo louco entre mãe e filha, creio que um filme tão lindo, um verdadeiro musical da Broadway, passaria a ser uma comédia de Oscarito.

(Jorge Queiroz da Silva - julho/2009)

quarta-feira, 14 de março de 2012

Detalhes sobre o Dr. Serrote


Prosseguindo nas lembranças dos personagens inesquecíveis de minha infância, cito o brilhante, “doutor” Serrote.Aqui mesmo, já contei sua história, mas confesso que ela é bem gostosa de se repetir, por ele ter sido um super-herói do bem.Instintivamente, sem mandos nem comandos, era o responsável pela saúde das inúmeras famílias residentes do nosso bairro, a inesquecível Penha.Curava todo e qualquer tipo de doença, ajudando as famílias carentes daquela época, com o seu vasto conhecimento da flora.Fazia uso adequado das ervas, principalmente das medicinais, estudioso que era do assunto. Saía invadindo as florestas das cercanias e de casa em casa, ele oferecia os seus serviços médicos.O que mais impressionava às crianças, era a sua curiosa maneira de vestir,que tentei retratar no desenho acima.Se apresentava de calças cinzas listradas de preto, com camisa branca de colarinho engomado e com botões dourados. Trajava ainda um fraque negro e uma elegante cartola preta, cintada por um tecido brilhante na cor lilás, que ele dizia ser a cor da sua alma.Trazia sempre uma bengala com cabo de prata.Usava cavanhaque, óculos de armação escura e às vezes até um prateado monóculo.Não esquecia as luvas brancas e os anéis, com significados das correntes mediúnicas orientais, além de um grande relógio de bolso com uma grossa corrente.Em suas costas ele portava um saco de linhagem branco, totalmente cheio de ervas e dependurado em seu cinto, um brilhante serrote, sempre limpo, que era a sua principal ferramenta de trabalho.Era assim, que aquele ser “humano especial” cultivava a amizade de toda a rua e conquistava os olhares de todas as donas de casa.E as crianças então? Essas o viam como a um “Deus”.Era muito comum, eu ouvir a minha mãe e outras tantas dizerem: - quando o “doutor” Serrote passar por aqui, eu vou resolver o problema da sua doença - e eu, criança, dia a dia, só via aumentar cada vez mais, a minha admiração pela figura tão terna daquele homem diferente, para mim, o mais perfeito representante de Deus.Lembro como se fosse hoje do meu colega de infância, o mineiro Beni, que estava desenganado pelos médicos do Hospital Getúlio Vargas, porque ele tinha espetado um prego enferrujado no pé e foi vitimado pelo tétano.Quem o salvou com suas milagrosas ervas? o nosso doutor Serrote.Fez uma verdadeira poção com a mistura das suas ervas, como o óleo vermelho, o saião, a erva de passarinho e outra conhecida como erva silvina. e Naquela época em que a medicina homeopática ainda carecia de muito aprofundamento nos estudos, esse milagreiro tinha com ele a proteção de Deus!
(Jorge Queiroz - abril/2000)

terça-feira, 13 de março de 2012

A poesia dos trabalhos de rua

Eu ainda era menino , mas me lembro, da festa que era “o serviço público de rua”. A alegria que traziam as carroças de lixo, ainda puxadas a burro.Eu morava numa das primeiras casas da rua e sabia o nome de todos os burros que puxavam as carroças, e era lá que os garis faziam a ultima coleta do lixo.Na calçada da minha casa eles faziam a farra, pois era o último ponto.Eles dançavam e cantavam samba, batucando nos latões coletores de lixo, dando um verdadeiro show.Depois da habitual apresentação, eles olhavam para minha mãe, e diziam - ô madame, com todo o respeito, só faltava agora a senhora, dar para nós, aquela água bem geladinha, com bastante gelo, pois nos já demos o nosso espetáculo, senão amanhã a gente não volta, para recolher o seu lixo! –Sem falar dos outros serviços, de porta em porta, como o do peixeiro “Tião”, que trazia de tudo, camarões, peixes, siris, caranguejos.Contávamos também com o serviço do verdureiro , o senhor Manuel, que vinha com a sua carroça lotada de tudo muito fresquinho, porque naquela época, as feiras livres só se realizavam aos domingos. Tudo na carroça do seu Manoel era de alto zelo e muita qualidade.Tínhamos também a famosa “vaca leiteira” que trazia das vacarias o leite puro de melhor sabor e que ainda vinha quente das tetas das vacas. Sem nenhuma mistura de água, era o verdadeiro tipo “A”, que proporcionava a quem sabia fazer, uma manteiga excelente.O povo naquela época tinha um atendimento personalizado, e se por acaso, algum daqueles comerciantes, não dispusesse na hora do produto desejado pela dona de casa, ela podia se dar ao luxo de encomendar para o dia seguinte. Que tempo bom era aquele!.Na esquina da nossa rua, passava a principal via de acesso a antiga Rio São Paulo, a avenida Braz de Pina.Era a via turística existente, que nos levava para as cidades serranas, pois não tínhamos ainda a atual Avenida Brasil. Era por ali que passavam todos os ônibus que iam para Petrópolis e Teresópolis, assim como para o Espírito Santo, São Paulo, Bahia, e Minas Gerais.Por ali também transitavam os saudosos bondes elétricos, que faziam as linhas de Madureira e Vaz Lobo, transportando uma grande massa de trabalhadores e estudantes..Mas a minha alegria era mais forte, quando se iniciava a noite.Era o feliz momento de ver o velho trabalhador da iluminação das nossas ruas. - um alegre senhor, maduro e experiente - que trazia sempre uma pequena escada nas costas. Vinha acendendo as luzes da rua, que eram a gás de querosene, uma a uma, alongando assim um pouco mais os nossos dias.Outro grande sucesso, era o lindo cavalo branco, cujo dono era o “Sanam”, o mais famoso banqueiro de bicho da região, que tinha a casa mais bonita e rica da Rua. Com o jogo de bicho proibido, todas as vezes que a polícia vinha prendê-lo, ele gritava para o seu cavalo: - Garoto, olha a polícia!O cavalo vinha correndo para junto dele e ele de um só pulo montava, mesmo sem arreios e sela e saía correndo em disparada em direção a cancela de madeira que limitava a travessia da linha férrea.Ali “Garoto”, aquele lindo cavalo branco, dava um tremendo salto e atravessava a linha férrea, que era defendida por uma cancela.Assim o “Sanam” conseguia sempre escapar da prisão e da ação policial, deixando os policiais assustados e com caras de “brocoió” , como se chamava o bobo daqueles tempos.Toda a garotada vibrava feliz pelo desempenho daquele lindo cavalo, que mais se parecia com o cavalo Sylver do Zorro, o famoso herói do cinema americano.Mas a emoção da criançada era aguçada quase que diariamente, quando corriam as notícias de que o banqueiro de bicho “Sanam” iria se defrontar num duelo a bala, com o outro não mais famoso banqueiro, o contraventor “Arlindo Pimenta”, que atuava na região de Ramos, um outro bairro do velho Subúrbio da Leopoldina.Aquilo sempre cheirava a um bang-bang, do cinema americano, causando expectativas e movimentando o pacato mundo daquela época.Mas a guerra teve fim com o assassinato do “Arlindo Pimenta” por um dos capangas do valente rival, o banqueiro invencível, “Sanam”.
(Jorge Queiroz da Silva - abril/2009)

Fonte da imagem:blog.scudeto.com