Lendo e ouvindo a música

Desenhos de Jorge Queiroz da Silva

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A grande febre das vídeo-locadoras me trouxe um grande ensinamento.

Nos anos oitenta, me associei a um amigo de trabalho, a seu convite, para que criássemos uma vídeo-locadora, a febre do cinema em casa, naquele momento. Para ganhar uma dimensão de mercado, foram necessários diferentes passos na implantação. Na sua instalação, nos colocamos dentro do novo sistema comercial que tomava vulto naquela época, os shopping-centers. Buscamos uma loja de fachada de tamanho de sessenta metros quadrados e instalamos um girau para o escritório comercial, de vinte e cinco metros quadrados e, para nosso conforto, refrigeração central. Bolamos uma pintura interna bem chamativa, entremeada com placas de cortiça e iniciamos então a colocação das vitrines e balcões em vidro, para a proteção e visualização do acervo. Fomos a CIC - Companhia Internacional de Cinema e contratamos fornecimentos programados, que incluía desde os filmes americanos mais famosos aos filmes russos, bem menos divulgados. Além daqueles produtos, a loja comercializava suportes unificados para TV e vídeo, novidades naquele momento. Sua fachada externa e seu logotipo de muito bom-gosto, conseguiu, de imediato, angariar o interesse de uma clientela diversificada, atraida também pelo próprio visual da loja. Aquela loja tornou-se um ponto de visita de clientes de várias idades, mas nós, os dois sócios, não tínhamos qualquer experiência naquele ramo de negócios e nossos passos naquele sentido, precisavam de muita urgência, para nosso sucesso. Não podíamos recusar clientes, viessem eles de onde viessem, e com isso, corríamos vários riscos. O primeiro deles, aconteceu no primeiro trimestre após a inauguração e por força de uma intervenção que veio de um elemento ligado ao tráfico de drogas. Aquele sujeito citou ao telefone, para o meu sócio, que ofereceria para nós um grande movimento nas locações dos filmes, fazendo um pedido semanal, todas as sextas-feiras, de cinqüenta a cem fitas. Assim, nos tornaríamos os principais fornecedores para toda a sua equipe, deixando claro que se nós desistíssemos do negócio, nós teríamos assaltos contínuos em nossa loja. Determinou que aquela locação seria paga sempre em espécie e deveríamos tomar o cuidado de sermos organizados para cumprir direitinho o seu pedido, sem trocar os filmes ou mesmo deixar de fornecer qualquer título. Se fôssemos obedientes, nossa vida comercial naquele local estaria tranqüila. A entrega daqueles filmes deveria ser feita sempre de taxi, por um dos nossos funcionários e aquele portador deveria aguardar numa das esquinas próximas do local (entrada da Cidade de Deus) o portador deles, que já teria em mãos o valor a pagar. Todas as segundas-feiras um taxi, com o mesmo funcionário, aguardava na mesma esquina o portador deles para devolver os filmes. Esse oferecimento, para nossa total segurança, jamais pode ser recusado, embora não tenha nos trazido qualquer prejuízo, além daquelas ameaças veladas.

(Jorge Queiroz da Silva, em ditado - 29/03/11)

Fonte da imagem: supervideobrasil.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário